quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Medíocre soCIeDADE - Ariana Medonça


Existe esse tipo de gente que não se emociona com nada
Que não sorri com um Drummond
Que não aquiesce frente a um Monet
Que não sublima ao som de Debussy
Que silencia com Rimbaud
E que emudece junto à Ginsberg

Esse tipo de gente não se importa com nada
Com exceção da alta ou queda da Bovespa

É o tipo de gente que se empertiga com,
ocupações em Wall Street
marchas na praia de Copacabana
movimentos de caras pintadas
passeatas ambientalistas
porque eles bloqueiam o trânsito

Porque esse é o tipinho de gente,
Que precisa chegar em casa às 19h30 em ponto
Pra assistir a novela
E chorar com a morte do mocinho

Porque coisas como,
A fome na Etiópia
As mortes na Palestina
os estupros corretivos na África do Sul
o infanticídio na China
a seca do Nordeste
a corrupção em Brasília
o silencio da esposa no quarto ao lado.
não são suficientemente comoventes.

Esse tipo de gente não se emociona com nada,
E por um lado é aceitável
Porque esse mundo é tão cão
Tão bruto
Tão desmedido

Que é fácil sentir raiva
E é tão fácil concordar
E não fazer nada
Porque nada e tudo, parecem nunca funcionar
Coisas e pessoas interrompidas

Eu me salvo através da arte, da arte
de qualquer tipo
da boa ou da ruim
Pois a arte qualquer é menos vazia
Do que a sua ausência
A arte e a fé são receptáculos únicos do significado da vida
Porque justamente não buscam convencimento algum
Elas são o prazer e o nirvana em si
O acesso é gratuito como o pé de manga no quintal.

Mas sempre existirá gente que não se comove com porra nenhuma
E eu não me comovo por eles
Sentados nas suas confortavéis poltronas
Com sua imitação de Picasso pendurada na parede
Sentindo que de alguma forma se identificam
Com o distorcido na tela
Sem entender bem o porquê
E sem saco para racionalizar sobre isso
Porque logo-logo o vilão vai aparecer
Para matar o mocinho
Esse é momento em que seu coração late
Vivendo a vida dos outros
Vida medíocre de Manoel Carlos

Sigo com,
Manoel de Barros
E é bom o suficiente para mim.









segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Nada - Ariana Mendonça


Escrevi essa poesia quando tinha 14 anos, dá pra acreditar? Acho que mereço um desconto pela pouca idade. Gosto dela, porque quando releio sinto um tom de desleixo, de ostracismo, de indiferença... Percebo que com a minha escrita eu estava me tornando o que sou agora. Já dava para perceber os leves tons da minha paleta. Mas me pergunto: Em que eu estava pensando quando escrevi essas palavras?
... Provavelmente em NADA.

domingo, 2 de setembro de 2012

Elisa Lucinda


O nome dessa poesia é Lilith Balangandã. O que posso falar da Lucinda? Conheci suas poesias, em um sarau da faculdade que fizemos na praia. Dois dos seus livros apareceram na roda, e alguém disse: "Ariana, Ariana, você é a pessoa para recitar isso. VOCÊ tem que ler!" E meu contato foi esse, li aquelas poesias em voz alta pela primeira vez (para mim mesma) e para todos que estavam ali. Completamente despudorada. O nível etílico lá pelas tantas também ajudou... Lembro-me que a poesia que li, foi essa que segue abaixo (imagina só, eu nem sabia o que estava por vir quando comecei a ler)...

Lambe Lambe

Passam muitas pessoas no saguão dos aeroportos.
Passam neste aeroporto da agora, 
e eu, no meu pensamento,
não me comporto, imagino elas fodendo:
fulano com fulano,
são casados, gozam, fazem planos?
E ela, quer logo que acabe?
E ele, penetra rosnando?
Fantasio as inúmeras possibilidades de encaixes,
em como foram as noites de amor que tiveram para fazer essas 
crianças chinesas africanas alemãs francesas mexicanas libanesas
brasileiras cabo-verdianas espanholas cubanas holandesas 
senegalesas turcas e gregas.


(meu pensamento é inconveniente mas ninguém sabe,
escrevo num café, estou, por fora, muito chique no cenário
e nitidamente estrangeira.)


Agora passam dois homens.
Sentam à mesa ao lado.


Falam germânico mas a tradução é da mais alta putaria,
Uma iguaria da mais pura sacanagem!
Eu sei, são gays. Eles não sabem que eu sei.
Pensam que escrevo o abstrato
E capricham descansados ao colo do idioma que não alcanço.
Mas sou poliglota na linguagem dos molhares,
cílios a mais antiga cortina do mais antigo teatro
na pátria universal dos gestos, meu bem!
Eles não escapam.
Um chupa muito o outro, que eu sei,
e o magrinho gosta de dar por cima e de lado.
Importante dizer que dentro desse meu pensamento safado
também não tem pecado.
Só me diverte
Ver o que todos negam,
O que não se diz no social,
Uma radiografia verbal da intimidade alheia é o que faço aqui,
Sem que ninguém suspeite,
Sem ninguém me permitir.


Aquele tem pau pequeno e, pior que isso,
e, mais que suas parceiras, acha isso um problema.
Aquele ali também tem, mas arde na cama e se empenha muito
compensando a diferença.
Aquela, num outro esquema,
diz não gostar da coisa
e fala sem parar.
Só uma pirocada de jeito para fazê-la calar.
A gostosa gordinha engole a espada todinha
daquele altão desajeitado,
cujo grosso membro se torna,
em meio às coxas dela, disfarçado.


E o velhinho punheteiro
De pau mole com jornal no colo?
Talvez seja o único a adivinhar o teor dos meus escritos,
dado que me olha dissimulado e constante
de modo a nunca perder meus segredos de vista.

(Com licença mas é dessa matéria hoje minha poesia)


Enxerida, vejo a mulher com cabelo cortado à la moicano
Com a menina que iniciara a tiracolo,
Feliz sem ser por ela lambida
E sem saber no que estou pensando.


Passam as pessoas
no saguão do aeroporto,
fingem que fazem check-in
fingem viajar sérias e de férias,
fingem estar trabalhando...
mentira,
pra mim ta todo mundo trepando!

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Chavela Vargas

Fonte: facebookofsomebody

"Eu sempre soube. Não há ninguém que aguente a liberdade alheia; ninguém gosta de viver com uma pessoa livre. Se você é livre, esse é o preço que tem que pagar: a solidão."

sábado, 25 de agosto de 2012

Sylvia Plath

Eu fecho meus olhos e todo o mundo cai morto;
Eu ergo os meus olhos e tudo nasce novamente. 
     
"Beije-me e você verá o quão importante eu sou."


"Nada fede como uma pilha de escrita não publicada"
                                                    





Pequenas Papoulas, pequenas chamas do inferno
Vocês fazem algum mal?
Você cintila. Eu não posso tocá-la.
Eu ponho minha mão entre as chamas.
Nada queima.

E isso me exauri, olhar você
Cintilando assim, enrugada e vermelho claro,
como a pele de uma boca.

Uma boca sangrenta
Pequenas saias sangrentas.
Há fumaças que eu não posso tocar
Onde estão os seus opiáceos, suas cápsulas enauseantes?
Se eu pudesse sangrar, ou dormir----
Se minha boca pudesse se casar com uma dor assim
Ou seus licores me filtrassem, nessa cápsula de vidro
Vaga e calmamente
Mas sem cor. Sem cor.

Até hoje só tive a oportunidade de ler o livro A Redoma de Vidro (The Bell Jar) dessa autora. E gostei muito. Ela é mulher escrevendo, você sente a feminilidade e a força produzindo algo belo e assustador. Sei que a vida da escritora não foi muito fácil, acredito que ela foi um pouco atormentada. Mas na literatura parece ser uma regra: escritores atormentados, leitores deliciados. Um pouco da história da autora que peguei no site http://www.culturapara.art.br:

Sylvia Plath nasceu em Boston, EUA, em 1932. Teve uma passagem melancólica por Nova York, tentou o suicídio por mais de uma vez, casou em 1956 com o poeta inglês Ted Hughes, foi com ele para  Cambridge, Inglaterra. Teve dois filhos. Descasou em 1962, escreveu seus poemas capitais, publicados postumamente no volumeAriel (1965), sua obra mais importante. Dois anos antes, em 1960, lançara o seu primeiro livro, Colossus. Em 11 de fevereiro de 1963, Sylvia Plath aos 30 anos de idade cometia suicídio inspirando gás na cozinha de sua residência.

Paulo Leminski

Fonte: <facebookofsomebody>

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Os Ombros Suportam o Mundo


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação. 
                                                                          Carlos Drummond de Andrade


Os versos acima foram publicados originalmente no livro "Sentimento do Mundo", Irmãos Pongetti - Rio de Janeiro, 1940.  Foram extraídos do livro "Nova Reunião", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1985, pág. 78.<Fonte:www.releituras.com>


domingo, 19 de agosto de 2012

Coisas da terra - Ariana Mendonça



 Meus pais há muito me contaram do sítio que uma vez tiveram, em Sambaetiba. Hoje me peguei pensando o quanto a minha vida seria diferente se eu não tivesse crescido na cidade. Apesar de ser um pensamento antigo, essas reflexões vieram à tona no dia de hoje em ocasião do meu pai ter trazido para casa um pé de aipim recém-saído da terra. Ele me chamou todo entusiasmado, como quem porta uma inovação. Para mim é. Embora esse tipo de coisa me pareça familiar, como se já vivenciado em vidas passadas, sou forçada a admitir que não tenho nenhuma intimidade com as coisas da terra.


Debulhar aquele pé de aipim para tirar cada aipim propriamente dito, exigiu muita força até eu entender que tem haver com jeito (essas coisas sempre tem a ver com o jeito), com a intimidade do fazer. E meu pai foi me dando uma mini-aula de como se replanta e se colhe  e como se vive no mato. Ele me disse que esses 10 aipins levaram seis meses para crescer. Eu ri. E perguntei quanto tempo a gente levaria para comer. Ele desconversou. Mas depois admitiu que em quatro dias fora da terra, eles já começariam a perecer. Eu admito para ele que acho muito difícil conseguir se alimentar só com o que se planta. Digo que deve demandar um grande pedaço de terra. Ele que diz que não. Abarca nosso pequeno quintal com as mãos e diz que em um pedaço de terra como esse já dava para viver, plantando aqui um tomate, acolá um milho, mais pra lá uns aipins. Eu digo que não. Duvido. Afirmo que teríamos que ter ao menos uma vaca. E a conversa prossegue assim. Nessa nossa paixão pelas coisas da terra. 



Esse momento traz à tona a velha sensação que possuo, de que teria sido mais feliz vivendo naquele sítio, caso eles não o tivessem vendido quando perderam tudo lá em meados dos anos 90. Sei que seria mais sábia e talvez mais paciente vivendo por lá. Porque aceito com mais humildade as coisas da natureza. As coisas dos homens não. Porque sei que para aprender sobre a natureza demanda tempo e entrega. As coisas do homem, não necessariamente. Não dá para saber que a laranja nasce a partir de um enxerto feito do limão se alguém não te ensina isso, ou sem ao menos ver alguém fazendo. Contudo, deixe uma criança com internet à vontade e você verá em pouco tempo ela te ensinando coisas. Afinal, qual é a criança que não está nos ensinando sobre tecnologia nos dias de hoje? Saídas do berço e ensinado aos mais velhos. No campo, o avô ensina tudo ao netinho. E o netinho aprende, é a ordem natural das coisas. Na cidade, o netinho tenta sem paciência ensinar sobre tecnologia ao avô, que finge que aprende. Ou porque sente que já não é mais tão idade de aprender ser ensinado, mas principalmente, porque a revolução tecnológica veio de maneira tão abrupta que é difícil assimilar tanta coisa em tão pouco tempo.


Muitos me dizem que sou saudosista demais, retrô em demasia. Que acredito demais na verdade do passado. Mas ouça, eu não quero convencer ninguém, ou sequer levantar uma bandeira. Sei também que o passado não foi perfeito. Nenhuma época foi. Ou será. É apenas que parece certo demais para mim, o modo de viver do passado: a relação familiar, os objetos, as roupas, o modo de conviver, o modo como o tempo (não) passava. O abraço da avó, os cinco irmãos, o pé na terra, a igreja no domingo, duas mãos tímidas se enlaçando, o lampião a gás, a rede, o bolo de fubá, dormir quando o Sol se punha, acordar quando ele nascia, a ausência da pressa, não ter medo de sair de casa. Não quero dizer com isso que a maneira como vivemos hoje não seja boa. Que ela não tenha suas vantagens. Família pequena (não ter que dividir), tênis de marca, estado laico, o primeiro beijo não mais assusta (a televisão/internet nos ensinou tudo sobre sexo), eletricidade, computador, automóvel, celular, cama king size, fast food, slow food, junk food, dormir de dia, acordar de noite, filho mandando nos pais. Não é que todas essas coisas não sejam divertidas, práticas e úteis. A questão é que elas não me parecem corretas. Boas, mas não corretas. Parecem um tanto descoladas da sintonia geral do meu mundo. E principalmente da natureza.

Penso por exemplo, que o avô ensinando ao neto confere utilidade a vida do avô, serventia a sua sabedoria. A criança ávida e receptiva como é, nos primeiros anos de vida, apreende as palavras do adulto e dá prosseguimento aos costumes e tradições. O avô pelo seu lado se sente útil e continua ativo, pois tem muito que ensinar aos seus pupilos. É o que sempre se nota no campo: um senso de utilidade estampado na testa dos mais velhos, o semblante de quem assume a missão de zelar e orientar quem viveu menos. Não é a toa que vemos distintos senhores nos altos dos seus 75 anos montando à cavalo, como  bem me lembro fazia o avô de um grande amigo meu, a quem tive o prazer de conhecer, quando juntos viajamos para Trajano de Morais. A avó escutava música clássica e o avô montava a cavalo. Nunca hei de esquecer essa atitude descolada do casal. Nada parecida com a dos avôs da cidade. Bem sei, nada parecida.

Afinal eu imagino como deve ser difícil viver toda uma vida para chegar aos seus 70,80,90 anos e sentir que seus costumes são ultrapassados, que não há nada a ensinar. Sendo, ao contrário, forçado a aprender todos os novos costumes e maquinários modernos. Os jovens tremem de orgulho ao falarem: _ “Meu avô tem Facebook, vai para baile da 3ª idade e passou as férias fazendo turismo de aventura em Bonito”. E os mais velhos ao se sentirem integrados seguem nessa onda. Eu pessoalmente acho espetacular ouvir histórias de idosos que pulam de bungee jump. Espetacular, mas não correto. Digo que não é correto em última instância por preconceito. Apenas acho que essa adrenalina toda é para quando somos jovens e inconseqüentes e recuperamos bem os ossos quebrados. Eu com certo pesar devo admitir, que seria um pouco demais para mim nos auge dos meus 22 anos brincar de pular elástico. O que, no entanto se fizesse, não me impediria de dar umas boas gargalhadas. Mas veja bem, quando fosse dormir a noite sentiria aquela leve contração no músculo que veio não me deixar esquecer, de que não sou mais criança. Acho que o idoso que pula de bungee jump se diverte, mas no fundo sente os seus efeitos negativos.
Essa é a diferença entre o bom e o correto. Não é preconceito. Simplesmente acho que cada idade possui uma característica mais marcante. A das crianças serem inocentes. Dos jovens serem imprudentes. Dos adultos responsáveis. Dos idosos grandes professores. Contudo, nada impede que os papéis se invertam ou mesclem durante a vida. Afinal, não deixa de ser engraçado ver uma criança perguntar de onde vem os bebês. Ver um adolescente com medo de chamar o primeiro amor para sair. De um adulto se lambuzando com sorvete. E de um idoso ouvindo um som no seu Ipod. Não é o caso de restringir, veja bem. Tudo é possível e passível a partir do momento em que somos seres viventes. Mais acredito na ordem e no fluxo da vida.  Não como impeditivo, mas como orientação.

Por esse motivo a vida junto ao campo me parece mais correta, e, portanto eu sinto que seria mais feliz colhendo meu alimento e interagindo com os animais. Todo aquele verde, aquela sabedoria da lentidão natural, o aprender-fazer do colher, plantar, podar, ordenhar, carpir, semear e ver nascer e morrer e começar tudo novamente. Simplesmente faz sentido demais na minha cabeça.

É uma teoria que sustento, até que alguém apareça com um argumento mais sensato. Definitivamente ela não é a prova de balas. Não posso dizer nem ao menos que é racional. Porque é uma certeza que carrego mais a nível celular, como que emanando dos poros quando eu vejo um pé de aipim saindo da terra marrom e fina. Certeza vinda da força que faço para tirá-lo do pé, descascar e cortar. E sei que não posso estar tão maluca assim por causa do tamanho do sorriso que vejo brotar, dos lábios do meu pai.

domingo, 12 de agosto de 2012

Lourenço Mutarelli


O Natimorto - Lourenço Mutarelli

Lourenço Mutarelli -18 de abril de 1964 -Brasileiro 
(Tinha que ser ariano igual a mim...)

Tenho que começar admitindo a minha resistência aos brasileiros, escritores brasileiros, sabe? Tenho dificuldade com o linguajar nativo. Não só com a linguagem, o problema é que todas as histórias me parecem reais demais, como coisas que posso vivenciar no dia-a-dia, ou experimentar através da música e da TV brasileiras. Não é preconceito de forma alguma, tenho mais de uma dúzia de autores brasileiros na ponta da língua, caso me perguntem sobre bons escritores. O fato é que leio pra fugir, para esquecer, desaparecer, viajar. A literatura nacional não me deixa fazer isso. Mesmo que tratem, por exemplo, do Norte ou do Nordeste, tão distantes espacialmente de mim, ainda é como se falassem de mim, essas regiões me são próximas na essência. Essência de brasileira.
Mas não faz tempo eu aprendi que todos os paradigmas que vivem em mim existem apenas para serem quebrados. E tinha que ser por um paulista, eu sabia que seria assim. Lourenço Mutarelli é o nome daquele que conseguiu com mais destreza enfraquecer meu paradigma.
         Com o lindo livro ‘O Natimorto’. Esse eu não comprei, peguei emprestado, e sabe aquela vontade de não devolver? Porque eu me apego. Não quero comprar um outro novinho em folha, quero justamente esse com que eu já me envolvi. Mas não o roubarei, pois ainda resta um fiozinho de fibra moral nesse ser cleptomaníaco de livros.  
          Voltando ao livro... Se eu tivesse que defini-lo em uma palavra, ela seria: originalidade. Além de escrever muito bem, de forma clara e instigante, o autor é bastante criativo. Ele joga os clichês fora, e cria diálogos levemente nonsenses dos quais eu adoraria participar. É um livro breve com uma história curta, 133 páginas de diálogos inteligentes, sagazes e bem escritos. Não há muitos personagens na história, e nenhum deles tem nome, nem mesmo os protagonistas ( O Agente e A Voz).
A história tem inicio com ele, O Agente buscando a Voz na rodoviária. A Voz é uma cantora lírica e ele...bem....é o seu agente. Ela intenta por intermédio dele ser apresentada ao Maestro, o qual ela espera fazê-la famosa. Os dois acabam se hospedando juntos em um quarto de hotel, trocando conversas surreais. A base da trama gira em torno de um aspecto peculiar: o Agente diz ser capaz de ler a sorte na fotografia dos maços de cigarro, como se essas fossem cartas de tarô. E acaba ficando obcecado nisso. Sem que ela perceba, o Agente envolve a Voz, trazendo-a para sua realidade corroída, traumática, esotérica e em crise.  
Muitos trechos são escritos em formato de poesia, com frases curtas e pausadas, como se para darem o tom da cabeça devaneante do Agente. Como se as cenas e os sentimentos que ele narrasse aos seus olhos fossem poesias, momentos oníricos.

”Ando em círculos.
Paro
em círculos.
Espero
em círculos.
Fumo
em círculos.
Solto fumaça.
A porta
permanece
fechada.” (pág 50)

Adorei as partes em que ele recorre às frases dos maços de cigarro, para gerar uma espécie de pausa chistosa entre os diálogos:

“Permaneço de pé
Fito os padrões do tapete.
Estranhos padrões.
Talvez,
advertências.
E, mesmo cientes de que “Crianças começam a fumar ao verem os adultos fumando”,
fumamos.” (pág 20)
 

          Através de um noir leve, Mutarelli nos fala do mistério que pode habitar o ser humano. As loucuras e paranóias que podem estar escondidas em pessoas que ao primeiro olhar podem parecer fascinantes. Sabe que se a gente parar para pensar nisso, fica louco, né? Eu só gostaria que o livro fosse um pouco mais longo (somadas as horas de leitura creio não terem passado cinco) sendo assim não tenho muito mais sobre o que discorrer. A leitura em si é que é o agradável, entrar em contato com essa criatividade louca e espirituosa do Mutarelli. Obviamente que não vou contar, mas o final também é surpreendente.
E como promessa é dívida e

“O fumo/furto causa infarto de coração”. O livro será devolvido ao seu respectivo dono.

Vou perguntar quantos quilos ele pesa... (piadinha interna, leia o livro que você entende).


Primeira página do livro


Charles Bukowski 2


domingo, 29 de julho de 2012

Sybil – Flora Rheta Schreiber



Flora Rheta Schreiber
(1918-1988) Americana
A escolha desse livro ainda é um enigma para mim. Não sei o porquê de tê-lo comprado. A capa não me chamou a atenção, a autora me era completamente desconhecida, e o título não me dava muita informação. Ainda que o livro não tenha sido um rombo no meu orçamento, ele teve que ser escolhido, e o foi, dentre muitos outros. Não posso dizer que me arrependi. Dentre tudo que li, admito que o tema desse livro é bastante original, e eu estava precisando disso. O que deixa a desejar é a escrita da autora, que não é lá essas coisas. Me peguei pensando que se essa idéia tivesse antes, assaltado um expert como o Stephen King, então teríamos um clássico da literatura universal. Mas como a perfeição é só com Deus, sigamos...

Sybil é uma história baseada em fatos reais de uma mulher com personalidade múltipla. Até aí, nada de muito chocante, né? Mas o que você diria de 16 personalidades, cada uma completamente diferente da outra dentro de uma única pessoa? E se o período em que essas personalidades ‘atuassem’ representasse um branco total na memória? Como será ser pego desprevenido no meio da neve, em um local desconhecido com apenas um casaco fino, sem se lembrar de como se chegou lá? Esses são episódios comuns na vida de Sybil Isabel Dorsett, a personagem atormentada do livro, a qual a Dra. Wilbur, sua psicanalista tenta ajudar em um processo de reintegração das personalidades. E vou te contar, tentar fazer essa mulher virar uma só é quase um milagre. Portanto, garotos, parem de reclamar da sua ‘mulher de fases’, esse caso é way, way worse.

Mas como falei nem tudo são flores. A leitura do livro é bem similar a personagem: cheia de altos e baixos. Pessoalmente achei o início do livro bastante morno e o meio pedante. Mas de um modo geral, a trama é salva pela fascinação que o tema gera sobre a gente. Primeiro a gente fica preso à história por que quer entender como a dissociação se dá, depois fica curioso pelas suas causas e em terceiro queremos saber se a paciente conseguirá ou não se reintegrar. O mais curioso é que cada personalidade possui características muito próprias, psicologicamente, fisicamente, de faixa etária e até sexualidade. Algumas são raivosas, outras letárgicas, algumas são aventureiras e outras muito religiosas, outras são independentes e outras maternais, existem até mesmo duas personalidades masculinas: Sid e Mike. Ainda assim elas mantêm uma consonância com a personalidade principal, portanto elas não chegam a ser paradoxais. Elas são como representantes dos sentimentos diversos que uma pessoa normal pode conter: raiva, alegria, inveja, medo, coragem, etc e tal. Cada uma dessas personalidades está ligada a necessidade de expressão de Sybil, pois elas são responsáveis por externar os sentimentos que a personalidade atuante não é capaz. Ou seja, quando uma carga emocional é muito forte, uma dessas personalidades assume o controle da situação e lida com ele de acordo com o seu temperamento.

Obviamente que se a história fosse ficcional não seria tão atraente. E embora a literatura ficcional esteja presente na medida em que foi necessária para recriar situações e emoções da personagem, a verdade cientifica do tratamento foi mantida. Ler e compreender que o caso Sybil Dorsett foi real é muito louco. Senti apenas falta de uma história melhor escrita, e com certeza essa trama daria um ótimo roteiro para o cinema. Se eu recomendaria a leitura? Bem, depende....  eu diria que se você é interessado em psicologia e literatura: com certeza. E se você, como eu, é capaz de suportar o amargo para obter o doce, com certeza também! Se não for, tudo bem, pois existem tantos peixes no mar, quanto livros na livraria. Bon chance!



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quinta-feira, 21 de junho de 2012

A Comédia Humana – William Saroyan

William Saroyan (1908-1981)
Americano

O que você esperaria de um livro chamado A comédia humana? Uma descrição irônica do ser humano? Um relato sobre a desgraça alheia? Uma colocação mordaz da maldade dos homens? Nada disso. Nem de perto. William Saroyan. William Saroyan é um grande otimista, meus caros.

A verdade é que esse livro publicado pela primeira vez em 1942 poderia e ao mesmo tempo jamais poderia ser sobre a desgraça humana. Porque embora o pano de fundo seja a guerra (o que há de pior no homem), o livro relata justamente o oposto. Ele mostra pessoas que conseguem sobrepor a maldade com amor. Quer tema mais poderoso que esse? Portanto, no final das contas eu acho que o livro tem esse nome porque o seu autor é tão otimista que não poderia nomear um livro seu, como A desgraça humana, por exemplo.

Apresentando a história 

O livro trata da família americana Macauley, constituída pela mãe (Mrs. Macauley), um filho mais velho (Marcus), um filho do meio (Homero), uma filha (Bess) e um filho menor (Ulisses). O pai morreu quando Homero – o personagem central – ainda era pequeno. Quando o irmão mais velho Marcus é enviado para a Guerra, Ulisses começa a trabalhar como estafeta do telegrafo local, a cidadezinha de Ítaca, Califórnia. Em volta de Homero existem muitos outros personagens interessantes, que sempre ensinam algo para o menino. Acredito que uma boa maneira de apresentar os personagens seria colocando uma frase de cada um, então lá vai:

Mrs. Macauley (a mãe) – “Você deve dar a todos que entrarem em sua vida. Então, nada nem ninguém terá o poder de privá-lo de alguma coisa, pois, se você der a um ladrão, ele não poderá roubar de você, e ele próprio já não será um ladrão. E, quanto mais você der, mais terá para dar.” (pág.24)
Bess (a irmã) – “Acho que não temos cortiços em Ítaca – disse Bess -, só gente pobre. Acho que temos uma espécie de governo municipal, mas me parece que a politicagem por aqui é bem pouca.” (pág.117)
Homero (o personagem principal) – “Vou ficar vigiando o tempo todo. Vou ficar pensando a respeito disso o tempo todo. Isso faz um camarada se sentir triste, mas não me importo. Somos uma gente feliz, é verdade, mas somos resistentes também. Não me importo de ficar triste. Importo-me a respeito de gente que não é resistente e que fica triste e magoada, e me parece que o mundo está cheio de gente assim.” (pág 133)
Mr. Spangler (o gerente da agência telegrafica) – “Os cemitérios e as penitenciárias estão cheios de bons rapazes americanos que têm tido má sorte e dias infelizes. Não são criminosos.” (pág 139)
Mr. Grogan ( o telegrafista) – “ Ninguém morre por nada.Todos  morrem procurando a graça, a imortalidade, procurando verdade e a justiça,e, um dia, esse grande corpo do homem, que somos todos nós, sem qualquer exceção, conseguirá o que quer (...)” (pág 123)
Miss Hicks (a professora) – “Antes que você avance muito no mundo, muitas vezes ouvirá gargalhadas, e não só gargalhadas dos homens, mas o riso de mofa das próprias coisas, procurando embaraçá-lo e fazê-lo recuar; mas sei que você não  prestará atenção a esse riso.” (pág 72)
Auggie (o jornaleiro) – “Quantos anos a gente tem de ter para não ser mais criança? – disse Auggie. – Quantos anos a gente tem de ter para poder tomar conta de si próprio, ou para fazer qualquer trabalho que queira?” (pág 94)
John (o estrangeiro/assaltante) – “Sempre fui inquieto e insatisfeito – disse o rapaz. – Não sei o que é. Nada tem significação para mim. Não gosto dos outros. Não gosto de estar perto deles. Não confio neles. Não gosto da maneira por que vivem ou falam, ou das coisas em que acreditam, ou da maneira porque se empurram uns aos outros.”(pág 140)
Lionel (amigo de Ulisses) – “ A gente não pode saber o que diz um livro, Ulisses, a não ser que saiba ler, e eu não sei ler – disse ele.” (pág 187)

Minhas impressões:

Como sempre eu não sabia do que se tratava a história do livro, o autor não me foi indicado por ninguém que não o Bukowski, que vez ou outra citava o seu nome. Mas hoje posso afirmar que esse livro está no hall das obras primas americanas para mim. A escrita do Saroyan é leve, simples e bem organizada. Na leitura, o sentimento que prevaleceu foi a felicidade. Embora ele me tenha feito pensar em todo esse horror que é a Guerra, um tipo de acontecimento que não interessa a nenhum cidadão, um melindre no qual os verdadeiros interessados nem chegaram a sentir o cheiro das trincheiras.
Homero possui um modo simples e positivo de encarar a vida. Tendo um irmão na guerra e estudando e trabalhando ao mesmo tempo para sustentar a família, o menino de 14 anos não se sente injustiçado. Ao contrário, Homero se sente feliz por poder ajudar, e pedalar para cima e para baixo entregando cartas e conhecendo pessoas. Embora sofra muito ao entregar as cartas do Ministério da Guerra, um tipo de informativo de morte entregue às famílias. Os trechos em que ele pedala e chora, pedala e chora, ainda são cenas nítidas comigo. A dor, o trabalho e a guerra fazem o pequeno Homero amadurecer. Um pouco como a adolescência de qualquer um: o primeiro contato com a maldade: você remexe a coisa, mas ainda não sabe bem no que está mexendo.
Outra lição é a maneira como a família Macauley lida com a morte. Pois o falecimento do pai não soa como um evento traumático na vida familiar, já que a mãe faz questão de deixar claro que o pai está com eles, que a presença pode ser sentida e que um dia todos se reunirão no céu. Aliais, eu juro por Deus, que se minha mãe fosse como a Mrs. Macauley eu seria uma mulher muito mais sã hoje em dia. Muitas vezes me deu vontade  de levar o livro até a minha mãe e falar para ela: _ Lê isso aqui! Olha como ela fala!_ Porque você não é assim? – Mas tudo bem eu entendo que a Mrs. Macauley é uma personagem saída da cabeça do Saroyan (teoricamente ela é o próprio Saroyan), então eu acho que pegaria um pouco mal pedir pra ele ser minha mãe. 
Em suma, o mais legal do livro inteiro é que a lição permanente sobre o otimismo e a bondade dos personagens não parece uma bobagem sentimental. Muito pelo contrário, é a bondade que literalmente salva essas pessoas. As salva da morte, da dor, do medo, enfim da própria infelicidade. O ódio e o medo são como doenças contagiosas e duradouras, portanto resistir e assumir a bondade como uma bandeira, não é algo fácil de se fazer. Um dos trechos que mais me marcaram nesse sentido foi esse aqui. Admito que não foi fácil tirar de mim a sensação de que aquelas atitudes e palavras eram absurdas, e ao mesmo tempo o que desejava para o mundo é que todos os seres humanos fossem e se tratassem assim.
Enfim, os tempos de Guerra foram difíceis. Acho que eu e a minha geração não podemos sequer calcular o nível da devastação psicológica, física, social, econômica e cultural que ela representa. Portanto, uma família que em meio a Segunda Guerra Mundial, após a perda do pai, e com um filho no campo de batalha ainda consegue manter o caráter, o respeito e o amor pelo próximo é um tanto assustador. É ao mesmo tempo uma lição de moral pelo exemplo, e uma espécie de utopia para os tempos modernos.  

 Obrigado pela lição de otimismo Saroyan, pois apesar de você ter me deixado envergonhada pela minha fraqueza, você me ensinou umas coisas e outras sobre a felicidade.

“Se um homem não chorou diante da dor do mundo, ele é menos que o pó por onde anda, pois o pó nutre a semente, a raiz, o caule, a folha e a flor, mas o espírito do homem sem piedade é estéril e nada pode produzir... ou produz só orgulho que mais cedo ou mais tarde levará ao assassínio de uma ou outra forma... o assassínio das coisas ou mesmo o assassínio de vidas humanas.” (pág 173)




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